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Bem à medida da mania lusitana das grandezas, levaram a Lisboa 144 chefes de Estado e de Governo da Europa e da África para uma Cimeira condenada ao falhanço logo à nascença. Como previsto, o genocídio de Darfur e a promoção da democracia e dos direitos humanos ficaram fora da agenda. Até os negócios correram mal. Satisfeitos, só mesmo os chineses.
Aliás, a Cimeira serviu para confirmar o que todos já sabiam. No terreno africano, a China apresenta uma enorme vantagem competitiva face à Europa, pois não sabe o que é a democracia nem os direitos humanos. E nem quer saber. A estratégia chinesa é simples e assenta, por um lado, na exploração da memória recente da dominação colonial europeia, por outro, ajuda incondicionalmente sem a cansativa retórica ocidental sobre "dirigentes submetidos ao veredicto popular", a "repartição justa e equitativa dos lucros", o "respeito pelo ser humano" e por aí fora.
O que de positivo se pode tirar da Cimeira de Lisboa é a aparente quebra de unanimidade nalgumas questões bem caras a alguns dos muitos criminosos convidados. A não ser o folclórico Kadhafi e o ignóbil Mugabe, já ninguém exige uma reparação pelo colonialismo. E de bizarro, como não podia deixar de ser, só mesmo a tenda do líder líbio e as amazonas da sua guarda berbere.
Muitos países condicionaram a sua participação ao convite a Mugabe e entre eles estão os nossos "irmãos lusófonos" da Angola e de Moçambique. Pois há motivos, aparentemente de força maior, para o apoio a tais regimes e são de natureza "histórica", "cultural", "linguística" ou de "proximidade".
Estas dúbias razões alimentam um abominável esquema diplomático de apoio mútuo, e Cabo Verde entra nessa cadeia. O novel embaixador cabo-verdiano em Luanda instou a classe política cabo-verdiana a não hostilizar o regime de José Eduardo dos Santos. Por solidariedade para com o diplomata, nesta coluna, não se acusará esse regime corrupto. Muito menos se apontará o dedo aos seus criminosos líderes.
Amílcar Tavares
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