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Nos tempos da globalização, os espaços de cultura representam um ambiente de afirmação da identidade, espaços únicos que permitem e dão acesso às manifestações culturais.
A decadência, supressão e até a eliminação desses espaços revela-se um grande atentado à valorização da cultura cabo-verdiana, e à diversidade das manifestações artísticas. Em Cabo Verde, assiste-se, um pouco por todo o país, ao crescimento dessa ameaça com o encerramento de cinemas e outros espaços culturais, como é o caso da degradação do Palácio da Cultura Ildo lobo que é o foco desta argumentação.
Na Convenção da UNESCO sobre a Protecção e Promoção da diversidade das Expressões culturais está explicito, no seu preâmbulo, que a diversidade cultural se fortalece mediante a livre circulação de ideias e se nutre das trocas constantes e da interacção entre culturas.
Ora, o Palácio da Cultura tem esse potencial aglutinador de ser um centro de interacção cultural a diversos níveis, quer em termos da diversidade que compõe a cultura cabo-verdiana, quer em termos da sua interacção com o mundo.
Desde do ano 2000 para cá, assiste-se à degradação progressiva desse espaço perante uma gestão incapaz de imprimir uma dinâmica ascendente e fortificante ao PCIL, minando a sua vocação ao não assumir uma visão forte e buscando compensar essa lacuna em torno de acções desconexas que tornam o espaço cada vez mais insustentável. Essa é uma ratoeira que tem abocanhado gradualmente as instalações do PCIL e, com o tempo (e com a depreciação dos equipamentos e estruturas), teremos cada vez mais espaços ociosos no PCIL até à sua completa degradação.
Ou seja, os problemas não se resumem à falta de dinheiro: há que enquadrar outras questões sobre a gestão de espaços culturais de forma que o orçamento não limite mas, pelo contrário, possibilite a acção dentro do possível.
Entretanto, na gestão, há que haver propósitos e fins para assim se fazer uso devido dos meios. Ora, pelas condições estruturais, o PCIL tem o potencial de ser uma incubadora de criadores, um espaço que alberga um viveiro de talentos, além de ser, também, automaticamente um espaço de fruição cultural.
Como exemplo, são inúmeras as escolas de música e de outras artes que sobrevivem no mercado pagando aluguer, enquanto no PCIL existem diversos espaços ociosos que não servem aos criadores e, consequentemente, privam o povo do acesso à sua própria cultura.
Embora a polémica tenha sido despoletada por causa da ocupação do bar pela ELECTRA, não se pode de modo algum centrar a questão no bar visto que ele é uma das dependências do espaço onde acontece muito mais do que comércio e restauração. O bar é o centro promocional das actividades, um espaço que recebe os críticos, artistas, amantes e cidadãos antes, durante e após eventos, sendo, também, um espaço de cultura.
Além disso, o espaço do bar alberga serviços, não só os que já existiam (como acesso à Internet, serviços de apoio de escritório, telefone público, espaço de divulgação), mas diversos outros como ambiente para exposição/venda, devendo, em todo o caso, funcionar em função do PCIL, ao serviço da cultura. E, além disso, devendo sustentar-se através da sua dinâmica comercial, mas fazendo parte de um todo que se quer dinâmico servindo de suporte para as actividades que lá se realizam.
Nesses aspectos, penso que a gestão do palácio (essa ou qualquer outra) deve fugir à visão restrita que vê em todos os problemas falta de dinheiro (ratoeira), e ampliar a questão para um leque mais vasto de ambições que envolve a valorização da cultura cabo-verdiana e dos espaços onde ela acontece. Assim, criando condições materiais e imateriais para servir aos criadores, assim como aos diferentes segmentos de público interessado.
A solução passa por parcerias efectivas entre o público e o privado, visto que ambos estão interessados, mas dominam áreas diferentes de actuação. A orientação politica é necessária, mas a dinâmica de produção cultural e de gestão efectiva e profissional é definitivamente tarefa e vocação dos privados.
Trata-se no fundo de uma questão de política cultural. Defendo, assim, o abandono de práticas compensatórias na acção do Ministério da Cultura e a implementação de programas mais efectivos como é o caso da assunção do PCIL como um forte instrumento de materialização de políticas. Isto, quer a nível de geração de novos talentos, espaço de produção e distribuição de conteúdos, fruição cultural, ou, até, de elemento de ligação com outras áreas de desenvolvimento económico e social, como são as actividades geradores de rendimento e emprego relacionado com turismo, comércio e eventos.
Amilcar Aristides Monteiro Investigador Empresarial
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